CADELA
Saturada do meu espaço/tempo, decidi me opor a ele encarnando minha própria cadela, sendo assim o animal doméstico de mim mesma.
Passei duas horas, as duas primeiras, me abstendo de mim, correndo no quintal e me divertindo tentando pegar moscas com o meu focinho. Não que isso estivesse sendo meu passatempo predileto; de fato, eu preferiria estar correndo atrás de pneus, algo assim mais exposto à maledicência pública, mas me enchia de felicidade ver o quanto não importava pra mim eu não ter o mínimo de coesão. Ser canina me remeteu a uma liberdade despretensiosa até com o próprio senso de liberdade, uma vez que toda minha liberdade se restringiu ao perímetro daquele quintal. Porém, cão que fui, eu quis mesmo foi engolir a mosca. Nenhuma de nós duas entendeu, mas fomos complacentes; eu, eufórica.
Eu tinha um rabo. Ele era como o mamilo nos homens, mas muito, muito mais protuberante e constrangedor. Sinceramente, me aturdiria a idéia de ter o meu humor avaliado por uma extensão estrambótica na espinha. Seria até absurdo, um ultraje, se eu não fosse um bicho dos mais brincalhões. Foi impossível não me divertir conosco quando abanei o rabo e, eu, lá de longe, sorri; abanei novamente e, eu, mais perto, sorri e entortei a cabeça; abanei o mais forte que pude e, eu, me agarrando, sorri de vez! Ah! Era uma alegria progressiva que rumou à explosão mútua: eu, de afeto e ternura, eu, de tanto ser apertada. Mas não explodimos.
Assim, continuei sendo cadela e, com satisfação, uma cadela de raiz, tradicionalíssima. Embora soubesse das coisas, eu não dei pata, não deitei, não rolei, não tentei ser bípede ou fazer qualquer prodígio ridículo que não me coubesse. Foi até com uma pontinha de orgulho que me vi como bicho subjugado, estúpido e vulgar. Oras! Era vantajoso: ao passo que eu fui pra escola, me apoquentei com colegas infelizes e atividades enfadonhas, eu fiquei sozinha na chafurda das horas cônegas, sem mexer uma palha sequer e, por mais imbecil que esse estado pudesse parecer, nada substituiria o meu alto posto, o venerável posto de bibelô e todas as regalias adjacentes.
Realizada, prossegui na nudez dos meus desfiles, (alguns até mesmo na rua, provocando o desejo e a inveja dos cachorros sujos, sem lar) no pragmatismo lacônico dos grunhidos da minha espécie, no cultivo de aceitar que às vezes eu me ignorasse e na semeadura de ignorar a morte, naturalmente.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
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3 comentários:
Show!
...vamos dormir na casinha de cachorros lá no quintal?
parabens pelo texto.
abraço
lau
Você não precisa de um blog pra se expressar melhor. Você precisa de uma coreografia. Mexa essa bunda, porra!
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